Leia o Primeiro Capítulo de "Como Arruinar um Visconde"

25/12/2025

CAPÍTULO I

Arabella

Derbyshire, Inglaterra. julho de 1831

Nunca confie em uma carruagem inglesa que promete "suavidade no percurso". Especialmente se estiver cruzando o campo de Derbyshire depois de dias de chuva.

Estávamos há quase três dias espremidas entre almofadas bordadas e perfumes sufocantes, quando a roda esquerda da carruagem decidiu mergulhar em um buraco como se tivesse prestes a se desmontar. Sacudi violentamente, bati o cotovelo na lateral de madeira e quase derrubei Sir Bigodes, que dormia esparramado sobre minha saia com toda a dignidade de um príncipe.

— Se essa carruagem fosse mais estável, talvez não precisaríamos chegar parecendo sobreviventes de um terremoto — murmurei, massageando o braço machucado.

— Arabella, querida, tente se portar com um pouco mais de entusiasmo. Esta viagem representa uma oportunidade. — Mamãe nem mesmo ergueu os olhos da revista de moda francesa que lia pela quinta vez desde Londres.

— Sim. Uma oportunidade de ser vendida para um pretendente britânico com o melhor título e pior personalidade. — Não consigo deixar de revirar os olhos, jogando uma mecha de cabelo rebelde para trás da orelha — Eu poderia muito bem ser comparada a uma vaca, ou a um bezerro premiado.

Sir Bigodes miou em solidariedade, enquanto mamãe suspirava como se minha boca fosse um fardo herdado do meu pai.

— Se você continuar com essas maneiras desleixadas, será comparada a um leitão — disse ela, virando lentamente a folha da revista — Agora deixe-me ler, querida, teremos tempo para discutir… isso.

Suspiro sabendo que era melhor me calar quando ainda podia fugir de uma briga e acariciei a pelagem branca de Sir Bigodes. Do lado de fora, a paisagem era… bonita. Irritantemente bonita, como uma pintura em um salão que insiste em parecer natural. Os campos eram verdes de um jeito que beirava o insolente, e o céu carregava aquele cinza inglês constante, como se o sol tivesse esquecido como brilhar com convicção, e mesmo assim pequenos raios luminosos cortavam as nuvens.

O cocheiro avisou que estávamos nos aproximando da propriedade Wyndham Estate, lar do visconde Wyndham e futuro noivo da minha prima inglesa, Belinda Glover. Sinceramente, eu não sabia o que esperar da propriedade ou do casamento. Era minha primeira vez pisando em solo inglês, e poucos dias em Londres foram o suficiente para me fazer desejar pegar o próximo navio de volta para Boston o mais rápido possível. A única coisa que me impedia de fugir era a perspectiva de encontrar Belinda outra vez mesmo lembrando pouco dela; nos vimos apenas uma vez, quando ela foi passar as férias na América comigo aos sete anos. Desde então, sempre trocamos cartas, pelo menos uma por mês.

— Você deve observar Belinda, querida — a voz de mamãe me faz desviar a atenção da janela de volta para a pena de avestruz em sua cabeça, a revista aberta em uma nova página em seu colo — Ela conseguiu fisgar um visconde muito rico, acredito que você também consiga alguma coisa.

— Mamãe… — protesto, fechando meus olhos. Não estava em meus planos me casar, muito menos com um inglês e ficar presa para sempre nesta terra chuvosa com pessoas tão insossas.

— Se bem que Belinda deve ter uns atributos a mais — mamãe finalmente levantou o rosto para me olhar, o desagrado evidente em seus olhos — Sem toda carne sobrando e cabelo ruivo — ela estreita os olhos — Talvez devesse usar uma touca de renda. Não estão muito na moda, mas o ruivo também não está.

Reviro os olhos e volto o rosto para a janela. Como se usar uma touca de renda fosse resolver o grande problema da minha existência: eu não era o tipo de filha moldada para a alta sociedade. Nunca fui.

A estrada de cascalho começou a se alargar, e a carruagem desacelerou com um rangido cansado e antigo. Ouço o cocheiro gritou alguma coisa abafada, e logo os portões de ferro surgiram à frente; altos, escuros, cobertos por heras entrelaçadas, como se até a natureza tentasse esconder o que havia lá dentro.

Mamãe se endireitou no assento, passou um pouco de pó de arroz no nariz com o dedo anelar e alisou o corpete azul com um ar de expectativa.

— Lembre-se de sorrir. E, por tudo o que é sagrado, não ouse falar sobre economia, literatura moderna ou… cavalos.

— Ah, sim — murmurei. — A tríade do escândalo feminino.

A carruagem finalmente parou revelando a imponente construção que era Wyndham Estate.

A casa era grande, antiga, com janelas altas e uma fachada de pedra que parecia resistir ao tempo por teimosia pura. Rosas trepadeiras subiam pelas colunas da entrada, como se tentassem suavizar a austeridade do lugar, mas só conseguiam torná-lo ainda mais teatral. No alto, uma torre. Porque, claro, toda propriedade nobre precisa de uma torre que não serve para nada além de olhar de cima para os pobres mortais.

Engoli em seco. Era real. Enorme. E, de alguma forma, mais fria que o ar lá fora.

A carruagem tremeu quando o cocheiro desceu, fazendo com que Sir Bigodes fincasse suas unhas em minha coxa.

— Ai! — resmungo, esfregando minha perna depois de mover o gato branco para o assento da carruagem. Nunca, em minha vida, eu havia conhecido um motorista tão diligente com a carruagem.

— Esconda essa cara feia. Sorria — repetiu mamãe, assim que um criado abriu a porta da carruagem, oferecendo a mão enluvada para ela. Como uma verdadeira rosa inglesa, mamãe desceu da carruagem com maestria, digna de uma rainha.

Coloco um sorriso falso em meu rosto e aceito a mão estendida do criado, tentando repetir os gestos de mamãe, tentando saltar da carruagem delicada como uma fada… apenas para tropeçar em minhas sapatilhas e quase cair de cara no chão, se não fosse pelo aperto do lacaio em minha mão.

— Arabella — sibilou, levando a mão até a testa — Cuidado!

— Desculpa — murmurei para o criado em um aceno de gratidão antes de alcançar mamãe, que me esperava no início da escadaria que levava até a porta da casa.

A porta da casa se abriu com um rangido solene, e um homem alto, magro como um palito e com uma expressão que parecia ter sido esculpida em pedra, nos aguardava no topo dos degraus, provavelmente o mordomo. Ele nos analisou como se estivesse tentando descobrir se havíamos chegado para uma visita ou para causar um escândalo.

— Imagino que sejam a Sra. e a srta. Baxter — disse ele com um leve movimento de cabeça. — Bem-vindas à Wyndham Estate. Eu sou o senhor Redcliff. Receio que tenham chegado um pouco antes do previsto. As festividades estão marcadas para começarem apenas amanhã, por isso, infelizmente, não há ninguém presente no momento para recebê-las formalmente.

— Como assim, ninguém? — indagou mamãe, elevando o queixo com indignação. — O que quer dizer com… "ninguém"?

— O visconde saiu para cavalgar e ainda não retornou — o mordomo estufou o peito — Os demais membros da família Wyndham foram para uma caminhada na vila.

— E meu irmão? — perguntou mamãe.

— Lorde Glover e sua filha estão acompanhando a mãe do visconde na vila — disse Redcliff parescendo imperturbável, como se sua alma estivesse há anos em estado de tolerância silenciosa.

— Que falta de senso — murmurou mamãe, já se abanando com a revista. — Receber convidados e não estar presente… Isso nunca aconteceria em Boston.

Reprimi o impulso de lembrá-la de que os convidados estavam programados para o dia seguinte e que ela própria decidiu adiantar a viagem, por puro capricho. Mas me limitei a apenas revirar os olhos enquanto Redcliff continuava com toda a calma do mundo:

— A governanta, senhora Redcliff, irá acompanhá-las até a ala da família, onde poderão descansar até o jantar.

Nesse instante, uma mulher de meia-idade, de postura ereta e olhos ligeiramente severos, surgiu ao lado do mordomo. Vestia preto da cabeça aos pés, com um broche discreto na gola e um olhar clínico.

— Senhoras — ela nos saudou, inclinando a cabeça com o mínimo de emoção. — Se quiserem me acompanhar, por favor.

Mamãe se pôs a caminhar imediatamente, seus passos suaves e decididos, como se ela fosse a dona do lugar, eu a segui com Sir Bigodes nos acompanhando com a calma de quem acredita que toda mansão foi feita para seu conforto pessoal.

Enquanto subíamos as escadas internas, ouvi mamãe resmungar em voz baixa:

— Que absurdo… uma casa tão grande e ninguém para nos recepcionar! Edward deveria saber que chegaríamos antes! Afinal, somos família da noiva! Somos quase da família Wyndham!

— Bessie ainda não se casou, o noivado nem mesmo foi oficializado, mamãe! Não podemos realmente ser considerados da família do visconde — murmurei, sem conseguir impedir o tom sarcástico.

Ela não respondeu, apenas apertou o passo.

O interior da casa era ainda mais grandioso que o exterior. Teto alto, painéis de carvalho escuro nas paredes, um tapete que parecia mais antigo que o próprio país de onde viemos. O ar era silencioso, como se estivesse perdido no tempo.

A senhora Redcliff nos conduziu por um longo corredor com janelas altas, o sol cinzento filtrando-se pelas cortinas de renda como se pedisse permissão para entrar. Os corredores cheiravam a lavanda e peônias, e eu poderia jurar que vi uma borboleta pousar no papel de parede florido.

— Estes são seus aposentos — disse a governanta, abrindo uma porta dupla com firmeza. — Há água quente sendo trazida, e suas bagagens serão levadas em instantes. O jantar será servido às sete em ponto.

— Muito obrigada — respondi, tentando parecer mais britânica e menos exausta.

— Senhora — a governanta chamou mamãe, levando-a mais para frente no corredor. Não pude deixar de respirar aliviada; pelo menos eu não precisaria dividir um quarto com ela.

Entro dentro do meu quarto, Sir Bigodes correndo pelo chão polido para ganhar impulso e pular sobre a cama com dossel no centro, coberta com roupa de cama branca e um edredom azul claro que combinava com toda a estética do quarto, o papel de parede parecendo o início do pôr do sol, com manchas alaranjadas no céu azul. Havia um guarda-roupas na parede ao lado da porta, grande o suficiente para abrigar o dobro da minha bagagem, e uma lareira na parede oposta à cama, com uma penteadeira que também servia como escrivaninha.

Ouço o baque suave das minhas sapatilhas contra o carpete enquanto me aproximo da cama, me jogando sobre ela ao lado de Sir Bigodes. Não posso deixar de suspirar com a maciez do colchão; a cama era ampla e confortável como uma nuvem! Se as camas de hóspedes eram assim, eu não ousaria nem imaginar como seria a cama do próprio visconde.

O que me fez pensar em Bessie. Segundo suas cartas, seu noivo era… velho, hostil e difícil de agradar.

— Pobrezinha… — digo, acariciando as costas de Sir Bigodes enquanto ele parecia tentar tirar uma soneca — Ninguém merece ser obrigada a se casar com um homem tão desprezível!

A resposta de Sir Bigodes não passou de um ronco preguiçoso.

— Muito bem, você está cansado — digo, me levantando da cama e indo diretamente para a janela, onde o cheiro de terra molhada ao sol exalava misturado ao cheiro das flores do jardim — Infelizmente, eu não.

****************

Depois de trocar a roupa da viagem por um vestido simples cor de pêssego, com a bainha um pouco mais curta do que o apropriado, porém perfeita para uma excursão depois da chuva e calçar minhas velhas botas marrons, saí da mansão em busca de ar fresco.

O jardim parecia bonito, bem cuidado, mas havia algo ali que me deixava inquieta. Tudo era simétrico demais, como se o lugar estivesse sempre sendo observado, sempre esperando aplausos. Caminhei sem pressa, ignorando os caminhos de cascalho e as roseiras dispostas com precisão matemática. Eu queria espaço. Campo de verdade. Algo mais perto do mundo, e menos do que se esperava dele.

Logo o jardim ficou para trás. Passei por uma pequena trilha cercada de árvores baixas e folhas novas, depois por uma cerca simples, quase escondida entre os arbustos que revelava o que eu estava procurando; um campo aberto, com algumas árvores espalhadas aqui e ali, o capim alto balançando devagar com a brisa do vento.

Ali, o ar parecia mais leve. Respirei fundo deixando a brisa inundar meus pulmões, e por um instante, não havia exigências nem sorrisos ensaiados. Apenas o farfalhar das folhas e o som das minhas botas pisando na terra fofa.

— Miau… — ouço o miado alto e agudo de um gato, distante, mas presente.

— Sir Bigodes? — chamo meu gatinho, olhando para o caminho de onde vim — É você?

— Miau.

Dessa vez, o som foi mais alto, na direção contrária de onde vim, e definitivamente não pertencia a Sir Bigodes.

Olhei ao redor, girando sobre os calcanhares. Havia árvores, algumas pedras cobertas de musgo, um velho carvalho ao fundo, com galhos que se estendiam como braços tortos.

Caminhei até lá, os miados aumentando, cada vez mais ansiosos. Meu coração acelerou um pouco, talvez por causa do chamado do instinto ou só porque eu tinha uma fraqueza absurda por animais em apuros.

— Onde você está, meu bem? — chamei baixinho, varrendo os galhos com os olhos. — Vamos lá… Me dê uma pista.

Mais um miado, quase desesperado, segui o som erguendo meu olhar enfim encontrando-o encolhido entre os galhos altos de uma árvore robusta. Era um filhote pequeno, tigrado, com olhos grandes e assustados, agarrado ao tronco como se o vento pudesse levá-lo embora.

Suspirei.

Claro. Claro que ele estava lá em cima.

— Querido! — digo, olhando para o gato magrelo com as unhas agarradas ao galho robusto da árvore — Como você foi parar aí?

O gato miou como se tentasse me responder, ou pedir ajuda.

— Deixe-me ver… — suspirei, olhando ao redor, vasculhando com os olhos em busca de qualquer coisa que pudesse servir: uma vara longa, uma escadinha esquecida, até mesmo uma carroça velha teria servido. Mas não havia nada. Só pedras, grama alta e algumas folhas arrastadas pelo vento.

— Você não poderia ter escolhido um lugar mais fácil, não é mesmo? — falei, já sem esperança.

O gatinho respondeu com um miado tão fino que soou quase ofendido. Me aproximei dois passos para trás e ergui os braços, olhando para ele.

— E se você… pulasse? Hein? Eu te pego aqui embaixo, juro. Vai, coragem. Eu sou forte. E rápida. Bem… mais ou menos.

Estendi as mãos como quem segura um travesseiro no ar.

O gato apenas se encolheu mais, os olhos ainda maiores, recuando lentamente para trás, agarrando-se ainda mais ao galho.

— Ótimo — murmurei, colocando as mãos na cintura. — Você vai me obrigar a subir aí, não vai?

Com um suspiro resignado, caminhei até a base do velho carvalho. A árvore era larga, a casca áspera e rachada. Com esforço, consegui apoiar o pé em uma saliência do tronco e me agachei para ganhar impulso, mas escorreguei; o chão parecia ligeiramente escorregadio ali.

Olhei para baixo. Uma pilha acinzentada se estendia ao redor da base da árvore.

Cinzas.

Cinzas de lareira, provavelmente despejadas ali pelos criados. E é claro que eu pisaria justo nisso.

Afastei um pouco o vestido e apoiei as duas mãos no tronco. O tecido claro da saia já estava manchado pelas cinzas que subiram com o impacto; adicionar alguns rasgos pela casca da árvore não mudaria muito.

— Maravilha — murmurei entre os dentes. — Mamãe vai desmaiar se me vir assim. Ou me vender a algum açougueiro qualquer só para esconder a vergonha.

Com mais um impulso, consegui me firmar nos primeiros galhos. O vestido prendia nos joelhos, e as botas pareciam pesar o triplo do normal. Mas eu continuei. Devagar, puxando o corpo com esforço, galho por galho. O gato, lá em cima, me observava com olhos arregalados, quase curiosos.

— Isso, fique aí. Só um pouco mais…

Subi mais um, depois outro. O vento bagunçava os cabelos soltos e me fazia piscar contra o pó de cinzas que grudava no rosto. Meus braços já doíam quando, finalmente, alcancei o galho onde ele estava.

— Pronto, querido… já estou aqui — falei, com a voz mais suave que consegui.

Estendi a mão devagar, mas o gatinho recuou.

— Não, não… está tudo bem, eu só quero ajudar…

Ele hesitou, as orelhas se abaixaram e, por um segundo, achei que ele ia se aconchegar em meus braços. Mas então um galho estalou sob meu pé.

Um ruído seco, alto demais.

O filhote se encolheu com um miado agudo e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, saltou para baixo.

Direto para a pilha de cinzas.

O impacto levantou uma nuvem cinzenta que se espalhou com o vento. A árvore inteira pareceu tossir junto comigo.

— Não, não, não, não… — tentei acompanhar a queda com os olhos, já me preparando para descer.

Cada galho rangia com meu peso enquanto eu descia da árvore. O gatinho me observava do chão, enquanto pacificamente lambia sua pelagem, se limpando das cinzas. Aparentemente os gatos têm sete vidas de fato.

— Seu gato danado! — resmungo, a menos de um metro do chão, quando escorrego na casca úmida da árvore, me desequilibrando e caindo de joelhos sobre a cinza, levantando-a ainda mais. — Droga!

Sinto as cinzas flutuarem até meu rosto e espanto-las com a mão. Antes que eu acabe por respirá-las, levanto-me apenas para encontrar meu vestido completamente arruinado. E provavelmente um joelho ralado.

— Bem… vou ter que me acostumar com a vida de esposa de um açougueiro — digo ao gato, me sentindo horrível — Tudo por sua culpa.

Tudo que o felino faz é miar. Um miado um tanto quanto debochado.

Esfrego as mãos na minha saia, tentando limpar a sujeira, mas tudo que faço é piorá-la ainda mais, e agora minhas mãos estão tão pretas quanto o vestido cor salmão.

Eu estava prestes a xingar o céu, a terra e o criado que espalhou as cinzas ao redor da árvore, quando sinto um arrepio por todo meu corpo e um pigarro me alerta de que eu não estava sozinha.

— Quando saiu de casa esta manhã, eu não esperava encontrar a Cinderela.


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